Ariano Suassuna, através de seu personagem Chicó, em O Auto da Compadecida, diz:
Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre.
Já Raul Seixas, na faixa de abertura de no 4º dos seus LPs clássicos e canônicos, Canto para minha morte, diz, com seu sotaque eminentemente baiano; timbre, trejeitos e inflexões inconfundíveis:
Eu sei que determinada rua que já passei não tornará a ouvir o som de meus passos. Tenho uma revista que guardo há muitos anos e que nunca mais eu vou abrir. Cada vez que eu me despeço de uma pessoa, pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez! A morte, surda, caminha a meu lado e eu não sei em que esquina ela vai me beijar… Com que gosto ela virá? Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer? (…)
E ainda, depois:
Qual será a forma da minha morte? Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida - e existem tantas… Um acidente de carro; o coração que se recusa a bater no próximo minuto; a anestesia mal aplicada; a vida mal vivida; a ferida mal curada; a dor já envelhecida; o câncer já espalhado e ainda escondido. Ou até quem sabe: um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio fio… Ó morte, tu ques és tão forte! Que matas o gato, o rato e o homem. Vista-se com tua mais bela roupa quando vieres me buscar! Que meu corpo seja cremado (…)
Genuinamente uma reflexão profunda e muitíssimo interessante dentro de um tango cativante e sublime que dá o tom e pano de fundo pra essa reflexão.